Conto, Virginius, 1864

Virginius



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, julho a agosto de 1864.

CAPTULO
PRIMEIRO

(NARRATIVA DE UM ADVOGADO)

No me correu tranqilo o S. Joo
de 185...

Duas semanas antes do dia em que a
Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem
assinatura e de letra desconhecida:

O Dr. ***  convidado a ir  vila
de... tomar conta de um processo. O objeto  digno do talento e das
habilitaes do advogado. Despesas e honorrios ser-lhe-o satisfeitos
antecipadamente, mal puser p no estribo. O ru est na cadeia da mesma vila e
chama-se Julio. Note que o Dr.  convidado a ir defender o ru.

Li e reli este bilhete; voltei-o
em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e
conhecidos... Nada pude descobrir.

Entretanto, picava-me a
curiosidade. Luzia-me um romance atravs daquele misterioso e annimo bilhete.
Tomei uma resoluo definitiva. Ultimei uns negcios, dei de mo outros, e oito
dias depois de receber o bilhete tinha  porta um cavalo e um camarada para
seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um
sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada
soma, importncia aproximada das despesas e dos honorrios. Recusei apesar das
instncias, montei a cavalo e parti.

S depois de ter feito algumas
lguas  que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo
meu, antigo companheiro da academia, que se votara, oito anos antes, ao culto
da deusa Ceres como se diz em linguagem potica.

Poucos dias depois apeava eu 
porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada,
entrei para abraar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu
alvoroado e admirado.

Depois da primeira expanso,
apresentou-me ele  sua famlia, composta de mulher e uma filhinha, esta
retrato daquela, e aquela retrato dos anjos.

Quanto ao fim da minha viagem, s
lho expliquei depois que me levou para a sala mais quente da casa, onde foi ter
comigo uma chvena de excelente caf. O tempo estava frio; lembro que estvamos
 em junho. Envolvi-me no meu capote, e a cada gota de caf que tomava fazia uma
revelao.

 A que vens? a que vens?
perguntava-me ele.

 Vais sab-lo. Creio que h um
romance para deslindar. H quinze dias recebi no meu escritrio, na corte, um
bilhete annimo em que se me convidava com instncia a vir a esta vila para
tomar conta de uma defesa. No pude conhecer a letra; era desigual e trmula,
como escrita por mo cansada...

 Tens o bilhete contigo?

 Tenho.

Tirei do bolso o misterioso
bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de l-lo, disse:

  a letra de Pai de todos.

 Quem  Pai de todos?

  um fazendeiro destas paragens,
o velho Pio. O povo d-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o
 na verdade.

 Bem dizia eu que h romance no
fundo!... Que faz esse velho para que lhe dem semelhante ttulo?

 Pouca coisa. Pio , por assim
dizer, a justia e a caridade fundidas em uma s pessoa. S as grandes causas
vo ter s autoridades judicirias, policiais ou municipais; mas tudo o que no
sai de certa ordem  decidido na fazenda de Pio, cuja sentena todos acatam e
cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como
se fora uma deciso divina. Quando dois contendores saem da fazenda de Pio,
saem amigos.  caso de conscincia aderir ao julgamento de Pai de todos.

 Isso  como juiz. O que  ele
como homem caridoso?

 A fazenda de Pio  o asilo dos
rfos e dos pobres. Ali se encontra o que  necessrio  vida: leite e
instruo s crianas, po e sossego aos adultos. Muitos lavradores nestas seis
lguas cresceram e tiveram princpio de vida na fazenda de Pio.  a um tempo
Salomo e S. Vicente de Paulo.

Engoli a ltima gota de caf, e
fitei no meu amigo olhos incrdulos.

 Isto  verdade? perguntei.

 Pois duvidas?

  que me di sair tantas lguas
da Corte, onde esta histria encontraria incrdulos, para vir achar neste
recanto do mundo aquilo que devia ser comum em toda a parte.

 Pe de parte essas reflexes
filosficas. Pio no  um mito:  uma criatura de carne e osso; vive como
vivemos; tem dois olhos, como tu e eu...

 Ento esta carta  dele?

 A letra .

 A fazenda fica perto?

O meu amigo levou-me  janela.

 Fica daqui a um quarto de lgua,
disse. Olha,  por detrs daquele morro.

Nisto passava por baixo da janela
um preto montado em uma mula, sobre cujas ancas saltavam duas canastras. O meu
amigo debruou-se e perguntou ao negro:

 Teu senhor est em casa?

 Est, sim, Sr.; mas vai sair.

O negro foi caminho, e ns samos
da janela.

  escravo de Pio?

 Escravo  o nome que se d; mas
Pio no tem escravos, tem amigos. Olham-no todos como se fora um Deus.  que em
parte alguma houve nunca mais brando e cordial tratamento a homens
escravizados. Nenhum dos instrumentos de ignomnia que por a se aplicam para
corrigi-los existem na fazenda de Pio. Culpa capital ningum comete entre os
negros da fazenda; a alguma falta venial que haja, Pio aplica apenas uma
repreenso to cordial e to amiga, que acaba por fazer chorar o delinqente.
Ouve mais: Pio estabeleceu entre os seus escravos uma espcie de concurso que
permite a um certo nmero libertar-se todos os anos. Acreditars tu que lhes 
indiferente viver livres ou escravos na fazenda, e que esse estmulo no decide
nenhum deles, sendo que, por natural impulso, todos se portam dignos de
elogios?

O meu amigo continuou a desfiar as
virtudes do fazendeiro. Meu esprito apreendia-se cada vez mais de que eu ia
entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a histria
do crime em cujo conhecimento devia eu entrar da a poucas horas. Detive-o.

 No, disse-lhe, deixa-me saber
de tudo por boca do prprio ru. Depois compararei com o que me contars.

  melhor. Julio  inocente...

 Inocente?

 Quase.

Minha curiosidade estava excitada
ao ltimo ponto. Os autos no me tinham tirado o gosto pelas novelas, e eu
achava-me feliz por encontrar no meio da prosa judiciria, de que andava
cercado, um assunto digno da pena de um escritor.

 Onde  a cadeia? perguntei.

  perto, respondeu-me; mas agora
 quase noite; melhor  que descanses; amanh  tempo.

Atendi a este conselho. Entrou
nova poro de caf. Tomamo-lo entre recordaes do passado, que muitas eram.
Juntos vimos florescer as primeiras iluses, e juntos vimos dissiparem-se as
ltimas. Havia de que encher, no uma, mas cem noites. Aquela passou-se rpida,
e mais ainda depois que a famlia toda veio tomar parte em nossa ntima
confabulao. Por uma exceo, de que fui causa, a hora de recolher foi a
meia-noite.

 Como  doce ter um amigo! dizia
eu pensando no Conde de Maistre, e retirando-me para o quarto que me foi
destinado.

CAPTULO II

No dia seguinte, ainda vinha
rompendo a manh, j eu me achava de p. Entrou no meu quarto um escravo com um
grande copo de leite tirado minutos antes. Em poucos goles o devorei. Perguntei
pelo amigo; disse-me o escravo que j se achava de p. Mandei-o chamar.

 Ser cedo para ir  cadeia?
perguntei mal o vi assomar  porta do quarto.

 Muito cedo. Que pressa tamanha!
 melhor aproveitarmos a manh, que est fresca, e irmos dar um passeio.
Passaremos pela fazenda de Pio.

No me desagradou a proposta.
Acabei de vestir-me e samos ambos. Duas mulas nos esperavam  cancela,
espertas e desejosas de trotar. Montamos e partimos.

Trs horas depois, j quando o sol
dissipara as nuvens de neblina que cobriam os morros como grandes lenis,
estvamos de volta, tendo eu visto a bela casa e as esplndidas plantaes da
fazenda do velho Pio. Foi este o assunto do almoo.

Enfim, dado ao corpo o preciso
descanso, e alcanada a necessria licena, dirigi-me  cadeia para falar ao
ru Julio.

Sentado em uma sala onde a luz
entrava escassamente, esperei que chegasse o misterioso delinqente. No se
demorou muito. No fim de um quarto de hora estava diante de mim. Dois soldados
ficaram  porta.

Mandei sentar o preso, e, antes de
entrar em interrogatrio, empreguei uns cinco minutos em examin-lo.

Era um homem trigueiro, de mediana
estatura, magro, dbil de foras fsicas, mas com uma cabea e um olhar
indicativos de muita energia moral e alentado nimo.

Tinha um ar de inocncia, mas no
da inocncia abatida e receosa; parecia antes que se glorificava com a priso,
e afrontava a justia humana, no com a impavidez do malfeitor, mas com a
daquele que confia na justia divina.

Passei a interrog-lo, comeando
pela declarao de que eu ia para defend-lo. Disse-lhe que nada ocultasse dos
acontecimentos que o levaram  priso; e ele, com uma rara placidez de nimo,
contou-me toda a histria do seu crime.

Julio fora um daqueles a quem a
alma caridosa de Pio dera sustento e trabalho. Suas boas qualidades, a
gratido, o amor, o respeito com que falava e adorava o protetor no ficaram
sem uma paga valiosa. Pio, no fim de certo tempo, deu a Julio um stio que
ficava pouco distante da fazenda, para l fora morar Julio com uma filha
menor, cuja me morrera em conseqncia dos acontecimentos que levaram Julio a
recorrer  proteo do fazendeiro.

Tinha a pequena sete anos. Era,
dizia Julio, a mulatinha mais formosa daquelas dez lguas em redor. Elisa, era o nome da pequena, completava a trindade do culto de Julio, ao lado de Pio
e da memria da me finada.

Laborioso por necessidade e por
gosto, Julio bem depressa viu frutificar o seu trabalho. Ainda assim no
descansava. Queria, quando morresse, deixar um peclio  filha. Morrer sem
deix-la amparada era o sombrio receio que o perseguia. Podia acaso contar com
a vida do fazendeiro esmoler?

Este tinha um filho, mais velho
trs anos que Elisa. Era um bom menino, educado sob a vigilncia de seu pai,
que desde os tenros anos inspirava-lhe aqueles sentimentos a que devia a sua
imensa popularidade.

Carlos e Elisa viviam quase sempre
juntos, naquela comunho da infncia que no conhece desigualdades nem
condies. Estimavam-se deveras, a ponto de sentirem profundamente quando foi
necessrio a Carlos ir cursar as primeiras aulas.

Trouxe o tempo as divises, e anos
depois, quando Carlos apeou  porta da fazenda com uma carta de bacharel na
algibeira, uma esponja se passara sobre a vida anterior. Elisa, j mulher,
podia avaliar os nobres esforos de seu pai, e concentrara todos os afetos de
sua alma no mais respeitoso amor filial. Carlos era homem. Conhecia as condies
da vida social, e desde os primeiros gestos mostrou que abismo separava o filho
do protetor da filha do protegido.

O dia da volta de Carlos foi dia
de festa na fazenda do velho Pio. Julio tomou parte na alegria geral, como
toda a gente, pobre ou remediada, dos arredores. E a alegria no foi menos pura
em nenhum: todos sentiam que a presena do filho do fazendeiro era a felicidade
comum.

Passaram-se os dias. Pio no se
animava a separar-se de seu filho para que este seguisse uma carreira poltica,
administrativa ou judiciria. Entretanto, notava-lhe muitas diferenas em
comparao com o rapaz que, anos antes, lhe sara de casa. Nem idias, nem
sentimentos, nem hbitos eram os mesmos. Cuidou que fosse um resto da vida
escolstica, e esperou que a diferena da atmosfera que voltava a respirar e o
espetculo da vida simples e ch da fazenda o restabelecessem.

O que o magoava sobretudo,  que o
filho bacharel no buscasse os livros, onde pudesse, procurando novos
conhecimentos, entreter uma necessidade indispensvel para o gnero de vida que
ia encetar. Carlos no tinha mais que uma ocupao e uma distrao: a caa.
Levava dias e dias a correr o mato em busca de animais para matar, e nisso
fazia consistir todos os cuidados, todos os pensamentos, todos os estudos.

Ao meio-dia era certo v-lo chegar
ao stio de Julio, e a descansar um bocado, conversando sobranceiro com a
filha do infatigvel lavrador. Este chegava, trocava algumas palavras de
respeitosa estima com o filho de Pio, oferecia-lhe parte do seu modesto jantar,
que o moo no aceitava, e discorria, durante a refeio, sobre os objetos
relativos  caa.

Passavam as coisas assim sem
alterao de natureza alguma.

Um dia, ao entrar em casa para
jantar, Julio notou que sua filha parecia triste. Reparou, e viu-lhe os olhos
vermelhos de lgrimas. Perguntou o que era. Elisa respondeu que lhe doa a
cabea; mas durante o jantar, que foi silencioso, Julio observou que sua filha
enxugava furtivamente algumas lgrimas. Nada disse; mas, terminado o jantar, chamou-a
para junto de si, e com palavras brandas e amigas exigiu-lhe que dissesse o que
tinha. Depois de muita relutncia, Elisa falou:

 Meu pai, o que eu tenho 
simples. O Sr. Carlos, em quem comecei a notar mais amizade que ao princpio,
declarou-me hoje que gostava de mim, que eu devia ser dele, que s ele me
poderia dar tudo quanto eu desejasse, e muitas outras coisas que eu nem pude
ouvir, tal foi o espanto com que ouvi as suas primeiras palavras. Declarei-lhe
que no pensasse coisas tais. Insistiu; repeli-o... Ento tomando um ar
carrancudo, saiu, dizendo-me:

 Hs de ser minha!

Julio estava atnito. Inquiriu
sua filha sobre todas as particularidades da conversa referida. No lhe restava
dvida acerca dos maus intentos de Carlos. Mas como de um to bom pai pudera
sair to mau filho? perguntava ele. E esse prprio filho no era bom antes de
ir para fora? Como exprobrar-lhe a sua m ao? E poderia faz-lo? Como evitar
a ameaa? Fugir do lugar em que morava o pai no era mostrar-se ingrato? Todas
estas reflexes passaram pelo esprito de Julio. Via o abismo a cuja borda
estava, e no sabia como escapar-lhe.

Finalmente, depois de animar e
tranqilizar sua filha, Julio saiu, de plano feito, na direo da fazenda, em
busca de Carlos.

Este, rodeado por alguns escravos,
fazia limpar vrias espingardas de caa. Julio, depois de cumpriment-lo
alegremente, disse que lhe queria falar em particular. Carlos estremeceu; mas no podia deixar de ceder.

 Que me queres, Julio? disse
depois de se afastar um pouco do grupo.

Julio respondeu:

 Sr. Carlos, venho pedir-lhe uma
coisa, por alma de sua me!... Deixe minha filha sossegada.

 Mas que lhe fiz eu? titubeou
Carlos.

 Oh! no negue, porque eu sei.

 Sabe o qu?

 Sei da sua conversa de hoje. Mas
o que passou, passou. Fico sendo seu amigo, mais ainda, se me no perseguir a
pobre filha que Deus me deu... Promete?

Carlos esteve calado alguns
instantes. Depois:

 Basta, disse; confesso-te,
Julio, que era uma loucura minha de que me arrependo. Vai tranqilo:
respeitarei tua filha como se fosse morta.

Julio, na sua alegria, quase
beijou as mos de Carlos. Correu  casa e referiu a sua filha a conversa que
tivera com o filho de Pai de todos. Elisa no s por si como por seu
pai, estimou o pacfico desenlace.

Tudo parecia ter voltado 
primeira situao. As visitas de Carlos eram feitas nas horas em que Julio se achava em casa, e alm disso, a presena de uma parenta velha, convidada por
Julio, parecia tornar impossvel nova tentativa de parte de Carlos.

Uma tarde, quinze dias depois do
incidente que narrei acima, voltava Julio da fazenda do velho Pio. Era j
perto da noite. Julio caminhava vagarosamente, pensando no que lhe faltaria
ainda para completar o peclio de sua filha. Nessas divagaes, no reparou que
anoitecera. Quando deu por si, ainda se achava umas boas braas distante de
casa. Apressou o passo. Quando se achava mais perto, ouviu uns gritos
sufocados. Deitou a correr e penetrou no terreiro que circundava a casa. Todas
as janelas estavam fechadas; mas os gritos continuavam cada vez mais
angustiosos. Um vulto passou-lhe pela frente e dirigiu-se para os fundos.
Julio quis segui-lo; mas os gritos eram muitos, e de sua filha. Com uma fora
difcil de crer em corpo to pouco robusto, conseguiu abrir uma das janelas.
Saltou, e eis o que viu:

A parenta que convidara a tomar
conta da casa estava no cho, atada, amordaada, exausta. Uma cadeira quebrada,
outras em desordem.

 Minha filha! exclamou ele.

E atirou-se para o interior.

Elisa debatia-se nos braos de
Carlos, mas j sem foras nem esperanas de obter misericrdia.

No momento em que Julio entrava por uma porta, entrava por outra um indivduo mal conceituado no lugar, e
at conhecido por assalariado nato de todas as violncias. Era o vulto que
Julio vira no terreiro. E outros haviam ainda, que apareceram a um sinal dado
pelo primeiro, mal Julio entrou no lugar em que se dava o triste conflito da
inocncia com a perversidade.

Julio teve tempo de arrancar
Elisa dos braos de Carlos. Cego de raiva, travou de uma cadeira e ia
atirar-lha, quando os capangas, entrados a este tempo, o detiveram.

Carlos voltara a si da surpresa
que lhe causara a presena de Julio. Recobrando o sangue frio, cravou os olhos
odiendos no desventurado pai, e disse-lhe com voz sumida:

 Hs de pagar-me!

Depois, voltando-se para os
ajudantes das suas faanhas, bradou:

 Amarrem-no!

Em cinco minutos foi obedecido.
Julio no podia lutar contra cinco.

Carlos e quatro capangas saram.
Ficou um de vigia.

Uma chuva de lgrimas rebentou dos
olhos de Elisa. Doa-lhe na alma ver seu pai atado daquele modo. No era j o
perigo a que escapara o que a comovia; era no poder abraar seu pai livre e
feliz. E por que estaria atado? Que intentava Carlos fazer? Mat-lo? Estas
lgubres e aterradoras idias passaram rapidamente pela cabea de Elisa. Entre
lgrimas comunicou-as a Julio.

Este, calmo, frio, impvido,
tranqilizou o esprito de sua filha, dizendo-lhe que Carlos poderia ser tudo,
menos um assassino.

Seguiram-se alguns minutos de
angustiosa espera. Julio olhava para sua filha e parecia refletir. Depois de
algum tempo, disse:

 Elisa, tens realmente a tua
desonra por uma grande desgraa?

 Oh! meu pai! exclamou ela.

 Responde: se te faltasse a pureza
que recebeste do cu, considerar-te-ias a mais infeliz de todas as mulheres?

 Sim, sim, meu pai!

Julio calou-se.

Elisa chorou ainda. Depois
voltou-se para a sentinela deixada por Carlos e quis implorar-lhe misericrdia.
Foi atalhada por Julio.

 No peas nada, disse este. S
h um protetor para os infelizes:  Deus. H outro depois dele; mas esse est
longe...  Pai de todos, que filho te deu o Senhor!...

Elisa voltou para junto de seu
pai.

 Chega-te para mais perto, disse
este.

Elisa obedeceu.

Julio tinha os braos atados; mas
podia mover, ainda que pouco, as mos. Procurou afagar Elisa, tocando-lhe as
faces e beijando-lhe a cabea. Ela inclinou-se e escondeu o rosto no peito de
seu pai.

A sentinela no dava f do que se
passava. Depois de alguns minutos do abrao de Elisa e Julio, ouviu-se um
grito agudssimo. A sentinela correu aos dois. Elisa cara completamente,
banhada em sangue.

Julio tinha procurado a custo
apoderar-se de uma faca de caa deixada por Carlos sobre uma cadeira. Apenas o
conseguiu, cravou-a no peito de Elisa. Quando a sentinela correu para ele, no
teve tempo de evitar o segundo golpe, com que Julio tornou mais profunda e
mortal a primeira ferida. Elisa rolou no cho nas ltimas convulses.

 Assassino! clamou a sentinela.

 Salvador!... salvei minha filha
da desonra!

 Meu pai!... murmurava a pobre
pequena expirando.

Julio, voltando-se para o
cadver, disse, derramando duas lgrimas, duas s, mas duas lavas rebentadas do
vulco de sua alma:

 Dize a Deus, minha filha, que te
mandei mais cedo para junto dele para salvar-te da desonra.

Depois fechou os olhos e esperou.

No tardou que entrasse Carlos,
acompanhado de uma autoridade policial e vrios soldados.

Saindo da casa de Julio, teve a
idia danada de ir declarar  autoridade que o velho lavrador tentara contra a
vida dele, razo por que teve de lutar, o conseguira deix-lo amarrado.

A surpresa de Carlos e dos
policiais foi grande. No cuidavam encontrar o espetculo que a seus olhos se
ofereceu. Julio foi preso. No negou o crime. Somente reservou-se para contar
as circunstncias dele na ocasio competente.

A velha parenta foi desatada,
desamordaada e conduzida  fazenda de Pio.

Julio, depois de contar-me toda a
histria cujo resumo acabo de fazer, perguntou-me:

 Diga-me, Sr. doutor, pode ser
meu advogado? No sou criminoso?

 Serei seu advogado. Descanse,
estou certo de que os juzes reconhecero as circunstncias atenuantes do
delito.

 Oh! no  isso que me
aterroriza. Seja ou no condenado pelos homens,  coisa que nada monta para
mim. Se os juzes no forem pais, no me compreendero, e ento  natural que
sigam os ditames da lei. No matars,  dos mandamentos eu bem sei...

No quis magoar a alma do pobre
pai continuando naquele dilogo. Despedi-me dele e disse que voltaria depois.

Sa da cadeia alvoroado. No era
romance, era tragdia o que eu acabava de ouvir. No caminho as idias se me
clarearam. Meu esprito voltou-se vinte e trs sculos atrs, e pude ver, no
seio da sociedade romana, um caso idntico ao que se dava na vila de ***.

Todos conhecem a lgubre tragdia
de Virginius. Tito Lvio, Diodoro de Siclia e outros antigos falam dela
circunstanciadamente. Foi essa tragdia a precursora da queda dos decnviros.
Um destes, pio Cludio, apaixonou-se por Virgnia, filha de Virginius. Como
fosse impossvel de tom-la por simples simpatia, determinou o decnviro
empregar um meio violento. O meio foi escraviz-la. Peitou um sicofanta, que apresentou-se
aos tribunais reclamando a entrega de Virgnia, sua escrava. O desventurado
pai, no conseguindo comover nem por seus rogos, nem por suas ameaas, travou
de uma faca de aougue e cravou-a no peito de Virgnia.

Pouco depois caam os decnviros e
restabelecia-se o consulado.

No caso de Julio no haviam
decnviros para abater nem cnsules para levantar; mas havia a moral ultrajada
e a malvadez triunfante. Infelizmente esto ainda longe, esta da geral
repulso, aquela do respeito universal.

CAPTULO III

Fazendo todas estas reflexes,
encaminhava-me eu para a casa do amigo em que estava hospedado. Ocorreu-me uma
idia, a de ir  fazenda de Pio, autor do bilhete que me chamara da corte, e de
quem eu podia saber muita coisa mais.

No insisto em observar a
circunstncia de ser o velho fazendeiro quem se interessava pelo ru e pagava
as despesas da defesa nos tribunais. J o leitor ter feito essa observao,
realmente honrosa para aquele deus da terra.

O sol, apesar da estao, queimava
suficientemente o viandante. Ir a p  fazenda, quando podia ir a cavalo, era
ganhar fadiga e perder tempo sem proveito. Fui  casa e mandei aprontar o
cavalo. O meu hspede no estava em casa. No quis esper-lo, e sem mais companhia dirigi-me para a fazenda.

Pio estava em casa. Mandei-lhe dizer que uma pessoa da corte desejava falar-lhe. Fui recebido incontinente.

Achei o velho fazendeiro em
conversa com um velho padre. Pareciam, tanto o secular como o eclesistico,
dois verdadeiros soldados do Evangelho combinando-se para a mais extensa
prtica do bem. Tinham ambos a cabea branca, o olhar sereno, a postura grave e
o gesto despretensioso. Transluzia-lhes nos olhos a bondade do corao.
Levantaram-se quando apareci e vieram cumprimentar-me.

O fazendeiro era quem chamava mais
a minha ateno, pelo que ouvira dizer dele ao meu amigo e ao pai de Elisa.
Pude observ-lo durante alguns minutos. Era impossvel ver aquele homem e no
adivinhar o que ele era. Com uma palavra branda e insinuante disse-me que
diante do capelo no tinha segredos, e que eu dissesse o que tinha para dizer.
E comeou por me perguntar quem era eu. Disse-lho; mostrei-lhe o bilhete,
declarando que sabia ser dele, razo por que o procurara.

Depois de algum silncio disse-me:

 J falou ao Julio?

 J.

 Conhece ento toda a histria?

 Sei do que ele me contou.

 O que ele lhe contou  o que se
passou. Foi uma triste histria que me envelheceu ainda mais em poucos dias.
Reservou-me o cu aquela tortura para o ltimo quartel da vida. Soube o que
fez.  sofrendo que se aprende. Foi melhor. Se meu filho havia de esperar que
eu morresse para praticar atos tais com impunidade, bom foi que o fizesse
antes, seguindo-se assim ao delito o castigo que mereceu.

A palavra castigo
impressionou-me. No me pude ter e disse-lhe:

 Fala em castigo. Pois castigou seu filho?

 Pois ento? Quem  o autor da
morte de Elisa?

 Oh!... isso no, disse eu.

 No foi autor, foi causa. Mas
quem foi o autor da violncia  pobre pequena? Foi decerto meu filho.

 Mas esse castigo?...

 Descanse, disse o velho
adivinhando a minha indiscreta inquietao. Carlos recebeu um castigo honroso,
ou, por outra, sofre como castigo aquilo que devia receber como honra. Eu o
conheo. Os cmodos da vida que teve, a carta que alcanou pelo estudo, e certa
dose de vaidade que todos ns recebemos do bero, e que o bero lhe deu a ele
em grande dose, tudo isso  que o castiga neste momento, porque tudo foi
desfeito pelo gnero de vida que lhe fiz adotar. Carlos  agora soldado.

 Soldado! exclamei eu.

  verdade. Objetou-me que era
doutor. Disse-lhe que devia lembrar-se de que o era quando penetrou na casa de
Julio. A muito pedido, mandei-o para o Sul, com promessa jurada, e avisos
particulares e reiterados, de que, mal chegasse ali, assentasse praa em um
batalho de linha. No  um castigo honroso? Sirva a sua ptria, e guarde a
fazenda e a honra dos seus concidados:  o melhor meio de aprender a guardar a
honra prpria.

Continuamos em nossa conversa
durante duas horas quase. O velho fazendeiro mostrava-se magoadssimo sempre
que volvamos a falar do caso de Julio. Depois que lhe declarei que tomava
conta da causa em defesa do ru, instou comigo para que nada poupasse a fim de
alcanar a diminuio da pena de Julio. Se for preciso, dizia ele, apreciar
com as consideraes devidas o ato de meu filho, no se acanhe: esquea-se de
mim, porque eu tambm me esqueo de meu filho.

Cumprimentei aquela virtude
romana, despedi-me do padre, e sa, depois de prometer tudo o que me foi
pedido.

CAPTULO IV

 Ento, falaste a Julio?
perguntou o meu amigo quando me viu entrar em casa.

 Falei, e falei tambm ao Pai
de todos... Que histria, meu amigo!... Parece um sonho.

 No te disse?... E defendes o
ru?

 Com toda a certeza.

Fui jantar, e passei o resto da
tarde conversando acerca do ato de Julio e das virtudes do fazendeiro.

Poucos dias depois instalou-se o
jri onde tinha de comparecer Julio.

De todas as causas, era aquela a
que mais medo me fazia; no que eu duvidasse das atenuantes do crime, mas
porque receava no estar na altura da causa.

Toda a noite da vspera foi para
mim de verdadeira insnia. Enfim raiou o dia marcado para o julgamento de
Julio. Levantei-me, comi pouco e distrado, e vesti-me. Entrou-me no quarto o
meu amigo.

 L te vou ouvir, disse-me ele
abraando.

Confessei-lhe os meus receios; mas
ele, para animar-me, entreteceu uma grinalda de elogios que eu mal pude ouvir,
no meio das minhas preocupaes.

Samos.

Dispenso os leitores da narrao
do que se passou no jri. O crime foi provado pelo depoimento das testemunhas;
nem Julio o negou nunca. Mas apesar de tudo, da confisso e da prova
testemunhal, auditrio, jurados, juiz e promotor, todos tinham pregados no ru
olhos de simpatia, admirao e compaixo.

A acusao limitou-se a referir o
depoimento das testemunhas, e quando, terminando o seu discurso, teve de pedir
a pena para o ru, o promotor mostrava-se envergonhado de estar trmulo e
comovido.

Tocou-me a vez de falar. No sei o
que disse. Sei que as mais ruidosas provas de adeso surgiam no meio do
silncio geral. Quando terminei, dois homens invadiram a sala e abraaram-me
comovidos: o fazendeiro e o meu amigo.

Julio foi condenado a dez anos de
priso. Os jurados tinham ouvido a lei, e igualmente, talvez, o corao.

........................................................................................................................................................................

CAPTULO V

No momento em que escrevo estas
pginas, Julio, tendo j cumprido a sentena, vive na fazenda de Pio. Pio no
quis que ele voltasse ao lugar em que se dera a catstrofe, e f-lo residir ao
p de si.

O velho fazendeiro tinha feito
recolher as cinzas de Elisa em uma urna, ao p da qual vo ambos orar todas as
semanas.

Aqueles dois pais, que assistiram
ao funeral das suas esperanas, acham-se ligados intimamente pelos laos do
infortnio.

Na fazenda fala-se sempre de
Elisa, mas nunca de Carlos. Pio  o primeiro a no magoar o corao de Julio
com a lembrana daquele que o levou a matar sua filha.

Quanto a Carlos, vai resgatando
como pode o crime com que atentou contra a honra de uma donzela e contra a
felicidade de dois pais.
