CRNICA. Cherchez la Femme, 1881

Cherchez la femme

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente
  em A
    Estao
  , Rio de Janeiro, 15/08/1881.

Quem inventou esta frase, como uma advertncia prpria a
  devassar a origem de todos os crimes, era talvez um ruim magistrado, mas, com
  certeza, excelente filsofo. Como arma policial, a frase no tem valor, ou
  pouco e restrito; mas aprofundai-a, e vereis tudo que ela abrange; vereis a
  vida inteira do homem.

Antes da sociedade, antes da famlia, antes das artes e do
  conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora
  assdua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrpolis, dos landaus e das luvas de pelica;
  antes, muito antes do primeiro esboo da civilizao, toda a civilizao estava
  em grmen na mulher. Neste tempo ainda no havia pai, mas j havia me. O pai
  era o varo adventcio, erradio e fero que se ia, sem curar da prole que
  deixava. A me ficava; guardava consigo o fruto do seu amor casual e
  momentneo, filho de suas dores e cuidados; mantinha-lhe a vida. No desvie a
  leitora os seus belos olhos desse infante brbaro, rude e primitivo;  talvez o
  milionsimo av daquele que lhe fabricou agora o seu vu de Malines ou Bruxelas;
  ou -- provvel conjetura! --  talvez o milionsimo av de Meyerbeer, -- a no ser
  que o seja do Sr. Gladstone ou da prpria leitora.

Se quereis procurar a mulher,  preciso ir at l, at
  esse tempo, d'ogni luce mutto, antes
  dos primeiros albores. Depois, regressai. Vinde, rio abaixo dos sculos, e onde
  quer que pareis, a mulher vos aparecer, com o seu grande influxo, algumas
  vezes malfico, mas sempre irrecusvel; ach-la-eis na origem do homem e no fim
  dele; e se devemos aceitar a original teoria de um filsofo, ela  quem
  transmite a poro intelectual do homem.

Assim, amvel leitora, quando algum vier dizer-vos que a
  educao da mulher  uma grande necessidade social, no acrediteis que  a voz
  da adulao, mas da verdade. O assunto  decerto prestado  declamao; mas a
  idia  justa. No vos queremos para reformadoras sociais, evangelizadoras de
  teorias abstrusas, que mal entendeis, que em todo caso desdizem do vosso papel;
  mas entre isso e a ignorncia e a frivolidade, h um abismo; enchamos esse
  abismo.

A companheira do homem precisa entender o homem. A graa
  da sociedade deve contribuir para ela mais do que com o influxo de suas
  qualidades tradicionais. Enfim,  preciso que a mulher se descative de uma
  dependncia, que lhe  imortal, que no lhe deixa muita vez outra alternativa
  entre a misria e a devassido.

Vindo  nossa sociedade brasileira, urge dar  mulher
  certa orientao que lhe falta. Duas so as nossas classes feminis, -- uma
  crosta elegante, fina, superficial, dada ao gosto das sociedades artificiais e
  cultas; depois a grande massa ignorante, inerte e virtuosa, mas sem impulsos, e
  em caso de desamparo, sem iniciativa nem experincia. Esta tem jus a que lhe
  dem os meios necessrios para a luta da vida social; e tal  a obra que ora
  empreende uma instituio antiga

    [1]

     nesta
  cidade, que no nomeio porque est na boca de todos, e alis vai indicada noutra
  parte desta publicao.

A ocasio  excelente para uns apanhados de estilo, uma
  exposio grave e longa do papel da mulher no futuro, para uma dissertao
  acerca do valor da mulher, como filha, esposa, me, irm, enfermeira e mestra,
  tudo lardeado dos nomes de  Rute e Cornlia, Rcamier e a Marquesa de
  Alorna. No faltaria dizer que a mulher  a estrela que leva o homem pela vida
  adiante, e que principalmente as leitoras d'A
    Estao merecem o

culto de todos os espritos elegantes. Mas estas coisas subentendem-se,
  e no se dizem por ociosas. Baste-nos isto: educar a mulher  educar o prprio
  homem, a me completar o filho.
